quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A Nogueira e o Carvalho (parte III)

 


   Numa tarde, estava ela se secando deitada às margens do rio e ele ainda na água,papeando com ela:

   -Você já saiu daqui alguma vez?
   -Claro que não!
   -E na outra margem?Você já foi?
   -Não, mas tenho vontade.Só que nadar até lá dá uma preguiça...muito longe...
   -E se eu te levar?
   -Como assim?
   -Nas minhas costas, você nada até metade do caminho, depois te carrego.
   -Tá, mas hoje não.

   Disse assim e saiu, foi caçar.

   Ele também saiu da água, nisso se aproximou uma cobra cheia de interrogações:

   -O que você está fazendo?
   -Nadando...
   -Não seu idiota!Sabe exatamente do quê estou falando!Não se faça!
   -Definitivamente não faço ideia do quê está falando, talvez você esteja se precipitando.
   -Um é predador do outro!Isso não pode acabar bem!Siga o ciclo, obedeça a ordem natural das coisas, ela é imprevisível e instável, volúvel o que acha que vai acontecer?Você segue uma linha e ela outra, vocês vão se machucar.
   -E pelo que posso ver a torcida é bem grande pra isso!Somos adultos!Podemos nos cuidar bem!
   -Pode até ser Sr. Jacaré, ela entretanto até outro dia nem imaginava quem era, nem a força que tem.Acho melhor o Sr. tomar cuidado.Realmente vocês não precisam de babá, porém se ela se machucar o equilíbrio será quebrado, e coisas ruins podem acontecer.Seja prudente, se afaste dela antes que seja tarde.
   -Somos amigos,ou isso não podemos também?
   -A quem você quer enganar?Deixa de ser idiota!Está claro como as águas desse rio, que tem algo maior entre vocês!E na minha opinião já passou da hora de acabar com isso.
   -Estou farto de todos me dizerem o que fazer!Gostaria de ao menos uma vez poder dizer e fazer o que bem quisesse!E depois as coisas podem mudar.
   -Olha pra você cara!Você foi feito pra reinar na água e ela na terra!
   -Mas somos adaptáveis um no habitat do outro...-insistiu o Jacaré com pertinência.
   -Meu Deus!É pior do que pensei!Não posso acreditar...as chances disso dar certo são de cem por um!
   -Então temos uma chance!
   -É óbvio, nítido demais, que cheguei tarde, agora é ver no que vai dar...

   A preocupação da cobra trouxe todas as pulgas de volta para a orelha do Jacaré que não podia negar o que estava acontecendo e que também temia o que podia acontecer.

   Já no seu galho, no conforto de sua árvore estava ela se limpando, se banhando, e também a coruja achou de poder falar sua opinião , e meio apavorada se aproximou da gata que lhe deu uma senhora olhada:

   -Eu... eu...queria te falar uma coisa posso?
   -Diz...
   -O que tem entre você e o Jacaré?
   -Se é da conta, o que poderia ser a não ser amizade e cumplicidade, afinidade...
   -Bom, é... toma cuidado, vocês são predadores um do outro, não ia gostar de te ver irritada.Ele parece legal e tudo, mas é traiçoeiro não pode gostar de ninguém além dele mesmo.Quando as coisas apertarem ele não vai pensar duas vezes para salvar a própria pele e te deixar para os abutres.

   Num rosnado ela assustou ainda mais a pobre coruja:

   -Não somos mais crianças, e tenho certeza que ele não é assim.Ele mesmo se empenhou em me fazer ver quem eu realmente sou, acredito nele, confio nele, ele é diferente não vai me prejudicar nunca.
   -Sua admiração por ele é grande, posso ver, você gosta dele mais do que diz.Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.Não faça isso, entretanto dá pra ver nos seus olhos que é tarde demais pra voltar atrás!Sinto muito por vocês...
   -Sua sorte é que já estou satisfeita, e não costumo matar senão para me alimentar, mas posso mudar de ideia se você continuar me enchendo, vaza daqui.
   -Não queria ser indiscreta, desculpa.
   -Obrigada pela preocupação!!

   Eles sabiam dos riscos, e também sabiam que tanto a coruja quanto a cobra tinham razão no que diziam.E mesmo que separadamente as conversas tenham acontecido, elas mexeram no mesmo lugar.O que fazer então?

   "O coração quer aquilo que bem entende, mesmo que seja mau pra ele." Um provérbio grego, que simplifica toda essa situação, ou não?

   O que é mau?

   O que é bom?

   Sim que as regras existem por algum motivo, e que elas nos protegem, mas de quem?De nós mesmos?Dos outros?

   É muita ironia duas almas pertencentes se encontrarem e não poderem ser plenas uma da outra. Sentirem o que sentem e ter de viver condicionadas ao sistema que as pessoas criaram.

   Desse modo ambos se mantiveram distantes.E tentaram mais uma vez se evitar.

   Ela triste.

   Ele triste.

   Olhares compridos um na direção do outro, e foi assim por dias.Até que um disparo deixou todos bem incomodados.Os que ouviram, correram para perto do Rio, ele estava ansioso pois ela ainda não tinha aparecido.Preocupado, ele a chamou, mas ela não respondeu.

   Silêncio.Um silêncio ensurdecedor.Sem sossego ia da margem do Rio ao pé da árvore.

   No cair da tarde, quando ela apareceu suja de sangue, ele não se conteve nas interrogações:

   -Onde você estava?Não ouviu o disparo?Você está bem?Esse sangue é seu?Você não deveria sumir desse jeito!
   -Eu tô bem!E sim o sangue é meu!E não sumi.Estava cuidando da minha vida!

   Irritada, tentou saltar para o galho como de costume, mas não deu conta então saiu brava urrando pelo mato.

   Ele mais aliviado por tê-la visto, porém preocupado com o sangue voltou para o seu velho carvalho e embora não quisesse ouvir, ele ouvia os rugidos dela e já não podia mais identificar quais eram de raiva,quais eram de dor...

   Já era alta noite, e ela veio.Se aproximou devagar e ronronando:

   -Ei, desculpa o mau jeito e a grosseria... é que eu ando muito irritada, confusa...
   -E com medo! -interrompeu ele completando a fala dela.E olhando gentilmente nos olhos dela como da primeira vez, desarmou-a e continuou -Eu também!E o que faremos?
   -Eu não sei.Só sei que chega de gaiolas e prisões invisíveis!Gosto do que sou quando estou com você, sou melhor e sinto que posso ser mais você viu, me viu, e trouxe o melhor de mim para fora me libertou de mim mesma não quero perder isso.

   Ele a abraçou tão forte,que ela se encaixou tão perfeitamente no aconchego do seu peito, que dali ela não quis mais sair.

   Permaneceram abraçados por uns bons minutos, depois se sentaram aos pés do carvalho e ali adormeceram lado a lado tendo o Rio e a Lua como testemunhas.

   Minha avó sempre me disse para não brincar com a Lua Cheia, nem com as correntes do Rio, pois que ambos sempre deitam suas bênçãos sobre aqueles que bem merecerem.

   Então que Rio e Lua fizeram um acordo:

   "Deitemos sobre eles nossas bênçãos e que eles tenham o direito de escolher seus destinos!"








                                (continua)

Nenhum comentário:

Postar um comentário