terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
IV Hello Darkness My Old Friend
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Esse é o Quarto capítulo da história, porém pode ser lido sozinho como um pequeno conto caso não queira se aprofundar e ter a visão geral de para onde iremos.
A tarde estava linda, o céu azul como em poucas vezes havia visto. Não estava completamente azul, haviam nuvens em formato de algodão que preenchiam a paisagem, formando uma pintura inacreditável.
Estava deitada na grama, com a cabeça apoiada em seus braços. Sentia-se como se estivesse totalmente livre. Não que já houvesse sido presa alguma vez, mas tinha uma sensação de que poderia ficar ali o quanto quisesse, como se, pela primeira vez na vida, não precisasse se preocupar com o relógio, não havia compromisso que a tirasse daquele paraíso.
Cães corriam pela grama, saltando em busca de frisbees ou gravetos lançados por seus respectivos donos. Famílias faziam piqueniques, Crianças participavam de brincadeiras.
A tarde estava quente, mas a brisa que batia equilibrava perfeitamente a temperatura. Se houvesse paraíso - um lugar físico como em obras de ficção - sem dúvida ele seria assim.
De repente, percebeu pelo canto do olho uma nuvem escura se aproximando, a pequena brisa se transformou numa rajada forte de vento, os cães começaram a latir, as toalhas de piquenique foram recolhidas, as crianças chamadas pelos pais para um lugar seguro. Provavelmente uma nuvem passageira de verão. Geralmente vêem com força e vão embora da mesma forma como vieram.
A chuva veio leve. Gotas finas caíram em seu rosto. Abriu a boca e as deixou correr, sentiu o seu frescor na garganta - continuava sendo o paraíso.
As gotas ficaram mais grossas, como sempre acontecia com tempestades de verão. Era hora de se abrigar e esperar o sol voltar a brilhar. Levantou-se, ou melhor, tentou, algo a impedia. Por mais força que fazia, não mexia um só músculo, parecia que algo a segurava. Já havia ouvido sobre isso, só que acontecia com pessoas que estavam acordando, pelo que lembrava era chamado de paralisia do sono. Mas não estava dormindo.
Tudo começou a ficar mais escuro, parecia que a luz ia dando lugar as trevas em um perímetro perfeito em sua volta, o circulo ia se fechando. Juntamente com a luz, o ar também estava ficando rarefeito.
Antes que conseguisse perceber o que de fato estava acontecendo, antes de entrar em total desespero, a luz sumiu totalmente, o ar simplesmente acabou, no desespero de sugar a última dose para seus pulmões, acordou.
Era escuro e úmido. Sem dúvida não estava mais deitada na grama do parque. Podia sentir o fedor putrefato do ar. A princípio pensou estar vendada, soltou as mãos que estavam praticamente livres em cordas, passou-as no rosto e não sentiu nada obstruindo sua visão. Mesmo assim não conseguia enxergar.
Estava cega - pensou.
Sentia que cada fibra de seu corpo ia se desfazer de tanto medo que corria por ele. Não mais tremia, até que o grito subiu de seus pulmões, passou pela laringe, pelas cordas vocais, até ressoarem um rouco, porém audível grito de desespero:
- Soccccooooooorrrrrooooooo!!!
Por um instante não houve mais nada no mundo a não ser ela é seu grito, ecoando no infinito da escuridão onde se encontrava.
Levantou-se com muita dificuldade, tateando as paredes ao redor, em busca de qualquer elemento que a ajudasse a descobrir onde estava.
- Ainda estou no parque, isso é um sonho, eu dormi e tive uma insolação, preciso acordar - Disse a si mesmo, em voz alta, tentando sentir-se viva.
As pedras que a cercaram deixavam claro que se tratava de uma caverna, porém eram lisas demais, como se tivessem sido moldadas por alguém, ou tivessem passado centenas ou até milhares de anos sendo esculpidas pela água que corria por elas.
Seguiu a barulho da água e encontrou uma pequena vertente no canto de uma das paredes, pegou um pouco em suas mãos e sorveu com os lábios - era incrivelmente saborosa, no sentido de que algo insípido pode ser, sentia que era totalmente incolor apesar de não poder enxergar. Sem dúvida era o líquido mais puro que já havia provado na vida.
Um dos problemas estava resolvido, o estômago ainda incomodava muito, mas a água já fazia com que recuperasse um pouco os sentidos, já estava começando a voltar a si, conseguia raciocinar novamente.
Começou a lembrar claramente do parque. Foi tão vívido, realmente sentiu estar lá. Mas agora, diante de sua realidade, não tinha dúvida de que se tratou de um devaneio. Não conseguia traçar o momento em que foi ao parque, muito menos o momento que a trouxe a essa escuridão - Se é que estava escuro mesmo, nunca esteve diante de um breu tão grande.
Tentava se lembrar como chegara a esta situação, nada vinha em sua mente além do belo dia no parque, a tempestade de verão, a suposta paralisia do sono.
Pensando bem também não lembrava de como tinha chegado ao parque, nem antes, nem depois. O que era sonho, o que era realidade?
Então a luz se fez. Não a iluminação que gostaria, porém pode perceber flash distante, mas o suficiente para perceber que não estava cega, já era alívio.
Conforme ia saindo do torpor inicial de quando se acordou, começava a sentir mais medo, frio, fome. O pânico começava a tomar conta da situação por completo.
Lembrou de suas aulas de ioga, da dificuldade que sempre teve em se manter relaxada no momento da meditação final - a quem queria enganar, sentia dificuldade até em se manter nas posições mais básicas, nem que fosse só por quinze segundos.
Sempre teve dificuldade em se manter tranquila, e concentrada, pelo jeito teria que aprender da pior maneira possível.
Então, o silêncio se desfez. Ouviu barulho de uma pesada porta de metal se arrastando, o barulho não vinha da Câmara onde estava, mas além. Porém, agora, sabia que não estava sozinha soterrada embaixo de uma montanha, o lugar realmente era uma espécie de quarto.
A porta aparentemente se fechou, seguiu o barulho e tateou as paredes até chegar a um espécie de porta, não a que acabará de ser afastada, aquela estava mais distante, era maciça, de metal, gelada.
Ouviu a porta distante sendo arrastada novamente. Algo vinha caminhando de forma irregular, difícil distinguir um padrão de passos, se apoiava na parede, cada vez estava mais perto, já dava para ouvir a respiração ofegante do ser, fosse ele humano ou não.
Ela se afastou da porta, encolheu-se em um canto, apenas aguardou.
Abriu-se uma portinhola na porta da qual havia se afastado. Sentiu uma respiração quente, pesada, um hálito que lhe causou náuseas, já não bastasse o buraco que sentia no estômago.
- Quem é você, o que estou fazendo aqui? - perguntou, com uma voz trêmula.
- coma - respondeu num grunhido pouco audível, enquanto jogava algo pela portinhola.
Ela se aproximou, tateou o chão úmido na escuridão e tocou em algo ainda mais úmido e pegajoso que o próprio chão.
- O que é isso? Um rato? Não posso comer isso.
A portinhola se fechou, os passos se afastaram, a pequena luz que havia surgido distante apagou. O parque foi um sonho, isso era um pesadelo.
Por PedroGM
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