O pequeno escrito a seguir é continuação deste
I - Vem com a Chuva
E deste
II - Quem Sabe amanhã
E deste
II - Quem Sabe amanhã
III
Só mais um caso
“Tonight
I'm gonna have myself a real good time...I feel alive and the world
I'll turn it inside out – yeah! I'm floating around in ecstasy…
So don't stop me now don't stop me...'Cause I'm having a good time
having a good time”
Maldito
momento que coloquei minha música preferida como toque do celular,
já a odeio – é o pensamento que vem antes mesmo de atender o
telefone.
-
Alô – falo com uma voz de sono após passar pela fase de negação
e atender ao telefone.
-
Vamos acordando aí que temos uma bomba explodindo no centro da
cidade – Veio de uma voz familiar, bela, apesar de ter essa beleza
totalmente abafada pelo momento inoportuno da ligação.
-
Só pode tá de sacanagem comigo, já olhou lá fora? Eu mal consigo
ver a calçada aqui da minha janela, maior chuva.
-
Sinto muito, mas parece que assassinos tem sede de sangue até em
noites como essa.
-
Paciência, pelo menos essa tua voz sempre me dá um gaz extra.
-
Então guarde essa energia toda e vá a casa nº 587, esquina da rua
Rui Barbosa com a 31 de Maio, a perícia já tá lá.
-
E qual é o caso?
-
Só fui encarregada de te acordar, os detalhes tão te esperando lá.
-
Beleza, mas quando chegar de volta a delegacia quero um café bem
quente e tua companhia pra me aquecer.
-
Vai sonhando – Ela nem termina de falar e deliga o telefone na
minha cara.
-
O que tem de bela tem de mal educada, nem se despediu – Eu sabia
que estava falando sozinho, mas essa mulher sempre me tirava do
estado normal.
***
Se
da janela do quarto parecia que chovia muito, na rua estava
impossível trafegar, pelo menos o trânsito era praticamente zero,
dado o avançado da hora.
De
longe avistei a luz dos sinalizadores das viaturas e não tive a
menor dificuldade em localizar o palco do suposto crime. Ainda mais
pela presença de inúmeras pessoas que já se aglomeravam
estranhamente em baixo da chuva.
O
povo não perdoa mesmo – penso comigo mesmo – Aposto que nem
conhecem que morava nessa casa, e mesmo assim o mau tempo não é
empecilho pra matarem a curiosidade, aposto que se tivessem que fazer
qualquer outra coisa não fariam com a desculpa da chuva.
Era
uma casa de esquina, com uma velha, porém bem cuidada cerca de
madeira em volta. O primeiro piso era de alvenaria e o segundo de
madeira, tão gastas quanto as madeiras da cerca, porém não tão
cuidadas.
Atravessando
o impecável jardim, desviando-me dos curiosos e mostrando minhas
credenciais ao policial que fazia a contenção daqueles, cheguei aos
degraus da entrada, onde já se encontrava o policial responsável.
-
Finalmente chegou cara, la encima tá a maior bagunça, um banho de
sangue, literalmente, o miserável que fez isso não poupou nem o
cachorro.
-
Poh Marcos, pra me chamar uma hora dessas, num tempo desses, a
situação tem que tá ruim mesmo.
-
Tu já vai mudar esse humor aí, vai ter muito com o que se divertir
nos próximos dias.
Subimos
as escadas, chegando no último lance e virando em direção ao
corredor, já vi a mancha rubro brilhante que quase se fundia ao piso
de madeira laminada perfeitamente encerado.
No
banheiro, o banho de sangue era geral, porém o sangue se destacava
mais ainda na cerâmica branca, mas o que mais chamava a atenção
era o cão pendurado em suas próprias tripas e a frase no espelho,
escrita a sangue, já escorrida, mas ainda compreensível, que dizia
“Não
só os cães que lambem, também posso lamber”.
-
Que
isso, um ritual satânico, que infeliz faria isso com um pobre
animal? Isso no espelho é sangue mesmo? Perguntei.
-
Cara, a princípio os peritos disseram que o sangue no espelho é do
cão, mas o do chão parece estar misturado com sangue humano. De
qualquer forma, é sangue demais para ser apenas de um cão desse
tamanho. Interrogamos alguns vizinhos e eles disseram que aqui mora
uma moça solteira, que raramente recebe visitas, apenas a veem
cuidando do jardim e brincando com o cão nos fins de semana.
-
E essa moça, onde está?
-
Não sabemos, mas pela quantidade de sangue que tem nesse banheiro,
ela não saiu bem daqui, senão ela, outra pessoa, mas o fato é que
alguém sangrou muito.
-
E como ficaram sabendo do ocorrido se ela morava sozinha?
-
Parece que alguém ouviu um grito e ligou pra emergência, uma
viatura que estava mais próxima veio até o local e encontrou a
porta da frente aberta, perguntou por alguém, ninguém respondeu,
então o policial deu de cara com essa bela cena.
-
Já
falou com a pessoa que ligou? Ela tá la embaixo?
-
Ai que tá cara, não é ninguém lá de baixo, ou, pelo menos,
ninguém teve coragem de se identificar, além disso a ligação foi
anônima e bem vaga quanto a ocorrência.
-
Você não tava de brincadeira mesmo, vou ter muito com o que me
“divertir” - aspas com os dedos enquanto – peça pra perícia
não deixar passar nada, lembra daquele caso né?
-
Lembro sim, pode ficar tranquilo, serão minuciosos – responde o
policial.
-
Beleza, vou fazer algumas perguntas lá embaixo.
Realmente
a chuva não era capaz de expulsar os curiosos. Felizmente aqueles
que poderiam ser úteis às investigações já haviam sido triados,
inclusive muitos já prestaram seus testemunhos, mas como não
confiava em mais ninguém além de mim, parti pro retrabalho.
Após
algumas conversas infrutíferas mirei uma senhora de mais ou menos
uns 70 anos – pelo menos foi o que me pareceu – me aproximei:
-
A senhora conhece a dona da casa? Perguntei
-
Conheço de vista meu querido, moro na casa ali do lado. Uma moça
muito bonita, mas sempre com um olhar tão triste, deve ser porque
vive sozinha num lugar tão grande, esses jovens de hoje são muito
solitários, eu acho que uma moça da idade dela já deveria estar
casada…
-
Ok, entendi – se não a cortasse ela teceria suas teorias sobre a
juventude sem causa dos dias atuais a noite inteira – A senhora viu
algo ou alguém suspeito pelas redondezas nesses últimos dias?
Eu
já ia encerrar a inquirição quando vi sua expressão de que não
se lembrava de nada anormal, quando:
-
Eu acho que não meu bem. Espera, Hoje, pelo fim da tarde, um carro
estacionou bem aqui em frente a minha casa, ficou aqui por muito
tempo, até a hora que fui me recolher ele ainda estava aí. Não
teria dado tanta atenção se já não tivesse o visto antes. Tenho
certeza que não é a primeira vez que ele fica ali parado.
-
A senhora viu quem estava no carro?
-
Não vi não, e tenho a impressão que ele ficou ali dentro, não o
vi sair, também não fiquei prestando muita atenção não, não sou
esse tipo de vizinho enxerido que fica cuidando da vida dos outros…
“Nossa
como fala” -
Pensei, então perguntei – Foi a Senhora que chamou a polícia? Vi
que sua casa é a mais próxima.
-
Não lindo, depois que tomo meu leite morno pra dormir não ouço
mais nada, acordei depois que o barulho da multidão já era maior
que o da chuva que caía.
-
Muito obrigado, acho melhor a senhora se recolher agora.
-
Espero ter sido útil meu querido.
Me
dirigi até o policial encarregado e pedi para verificar com a
prefeitura se haviam câmeras de segurança nas redondezas e em caso
positivo me enviarem para análise das imagens. Essa história do
carro pode ser promissora se não se tratar apenas de implicância de
uma vizinha xereta.
Aqui
meu trabalho estava terminado por ora.
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