terça-feira, 8 de novembro de 2016

II – Quem sabe amanhã

O pequeno escrito a seguir é continuação deste 


Postando anteriormente no Blog
Sem ler aquele, este não vai ter o menor significado...
Boa leitura


Era pra ser mais um dia monótono como todos os outros, acordou com a claridade em seu rosto, sabia que isso era sinal de que estava atrasado novamente. Virou de lado e viu que o rádio relógio dava razão ao seu sentimento, já perdera a hora, já passara das sete.

Há muito tempo não se importava tanto com isso, se fosse há alguns anos sem duvida levantaria da cama num salto, vestiria a primeira roupa que encontrasse, poria a escova e pasta de dente no bolso e dirigiria o mais rápido possível até o trabalho, sabendo que já estava atrasado e que o esporro já era garantido.

Mais um dia de chuva na cidade, não bastava acordar atrasado e ter que fazer tudo as pressas, ainda teria que enfrentar mais de uma hora de congestionamento. O trânsito já era insuportável em dias de sol, quando chovia então, os ogros saiam das cavernas.

O escritório da empresa ficava em um prédio no centro da cidade, uma construção que um dia já foi motivo de orgulho para a arquitetura local, mas que hoje era um símbolo da decadência de tudo que já fora belo e hoje era esquecido pelo tempo.

Chegando ao trabalho, aliás, ensopado, finalmente teve o primeiro momento de alegrai em seu “excelente” dia, o supervisor carrasco não fora trabalhar.

Passando pelas baias (o supervisor insistia em chamar de escritórios individuais), balançando levemente a cabeça para cima para cumprimentar os colegas, até que passou pela única luz que ainda enxergava naquele lugar – mesmo ela não sabendo que tinha essa importância toda.

Era uma garota incrível, um pouco fechada é verdade, mas exalava uma aura que a diferenciava de todos ao seu redor. Nunca tivera coragem de conversar com ela assuntos que não fossem relacionados com o trabalho, nunca foi muito popular com as garotas.

Diversas vezes passou pela frente de sua casa, ensaiou uma visita, mas sempre que ingressava o pátio e chegava próximo da porta ouvia latidos o repelindo, vindos do interior da casa – sabia que não era um bom sinal, se o animal de estimação não ia com sua cara, tinha poucas chances com a dona.

Gostava muito de observar as pessoas, perceber seus trejeitos, suas manias, mas nunca tinha chegado ao ponto que chegou com ela. Diversas vezes a seguiu no caminho para casa – é claro, na intenção de se aproximar como qualquer pessoa faria – sabia que ela geralmente ia trabalhar de bicicleta, que em dia de chuva pegava o transporte público, mais precisamente dois ônibus no trajeto. Já a observara em livrarias e cafeterias, locais esses que a deixavam ainda mais interessante.

Hoje estava espetacular, da forma simples como só ela conseguia ficar. Vestia um pesado casaco para chuva, calças jeans e botas – Tão bela na sua simplicidade.

Ela nem o olhou quando passou – tudo bem, era assim com todos. Ele tinha certeza de que ela só precisava de alguém que realmente a compreendesse, e ele estava disposto a ser essa pessoa.

Seguiu até sua baia e começou a procrastinação diária, apenas aguardando o relógio bater dezoito horas para que pudesse voltar para sua vida miserável.

A chuva batia nas janelas, o vento pressionava os pingos contra o vidro. Como gostava desse clima, o barulho da água caindo e o ar fresco que a chuva trazia sempre o fazia ter belos momentos de reflexão. Nesse ambiente sempre se fechava ainda mais em seu casulo, hermeticamente trancado em seu mundinho de pensamentos revolucionários e nada concretos.

Imaginou-se juntamente com ela, um completando o outro, sentados à beira de uma lareira, lendo um livro, tomando um vinho, um ambiente aconchegante, apesar do frio que vinha de fora.

Pronto, estava decidido, esse era o dia perfeito, o clima ideal, era um momento de mudança, da tomar as rédeas da situação. Hoje a abordaria, oferecer-lhe-ia uma carona para casa, inventaria qualquer desculpa no caminho, pararia numa loja de vinhos, compraria o vinho perfeito – se tinha bom gosto para algo, era para vinhos – não tinha como dar errado, e se desse? Não tinha nada a perder.

O dia passou, o devaneio foi profundo, só pensou na noite que teria, planejou cada detalhe. Ergueu os olhos para o relógio, viu que era o momento, levantou-se e foi até ela.

- Droga. Tarde demais.

Ela já havia saído. Mas a vontade era maior do q esse simples detalhe, já foi até a casa dela antes, dessa vez bateria na porta e daria um passo adiante.

Saiu do trabalho, passou em uma loja de vinhos, como planejado, escolheu o melhor Cabernet Chileno que conhecia, comprou bombons e seguiu para seu destino.

BAROOM! BARUUUMM – trovejava.

O inevitável aconteceu, ao estacionar do outro lado da rua, em frente a casa dela, travou, o pânico e ansiedade tomaram conta de seu corpo. Observou por alguns minutos. Uma luz do andar de cima da casa estava acessa.

- Deve ser o banheiro – pensou.

Não deve fazer muito tempo que chegou a casa, afinal, pegar duas conduções em um dia como esse não é nada fácil – Se pelo menos ele tivesse sido mais rápido, teria lhe dado carona e ainda teria marcado alguns pontos, além de uma desculpa para lhe convidar para algo.

Resolveu esperar, sem dúvida bater na porta e obriga-la a sair do chuveiro para atender a porta não era uma boa estratégia.

Esperar nunca foi problema, muitas vezes quando estava entediado em casa dirigia até ali e esperava, ensaiava uma visita, pensava no que falar, criava a expectativa de que ela sairia e ele inventaria uma desculpa qualquer para encontrá-la “por acaso”.

Todas as vezes que criou uma coragem a mais da qual corriqueiramente possuía, e conseguiu chegar perto da porta, foi repelido pelos latidos do cão – que pelo jeito jamais aceitaria sua presença dentro de seu lar.

Adormeceu.

Não mais chovia, não havia mais hesitação, medo era um conceito tão distante quanto a porta um dia pareceu ser. Espera, não era mais, a porta estava logo ali. Ele bateu. Ela atendeu. Convidou-o a entrar, sentar no sofá, serviu-lhe um vinho e antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela se declarou, disse-lhe o quanto ensaiou esse momento, o quanto esperou que ele batesse em sua porta, o quanto necessitava de sua presença.

Acordou.

Estava em frente à porta – Essa foi à vez que chegara mais longe, precisou estar dormindo para caminhar até ali – a luz da sala estava acesa, o cão não latia. Será que finalmente chegou o momento, o sinal estava aberto.

Então, a luz da sala se apagou, a do corredor foi ligada... Desligada... a do quarto foi ligada e derradeiramente desligada.

Sem dúvida perdeu a janela de aproximação, se era inoportuno bater à porta no momento do banho, quando já estava na cama então, prestes a dormir, seria um ato sem volta.

Baixou a cabeça, refletiu por alguns minutos – pelo menos foi o que pareceram – retornou ao carro e ali permaneceu, em estado catatônico. Tudo que planejara durante todo o dia se desfez por pequenos desencontros, pequenos momentos de hesitação.

Então, uma luz se fez, em sua cabeça e no cômodo da casa que já havia estado iluminado horas atrás. No exato momento que levantou os olhos para àquela janela ouviu um grito, não um grito qualquer, mas o grito mais horripilante que já ouvira na vida, só não foi pior, pois um relâmpago o abafou no exato momento em que foi expelido por ela.

- AAAAHHHHHH!

BAROOOM!


Por PedroGM
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